MULHER: NA LUTA PERMANENTE POR ESPAÇO E RESPEITO, O AVANÇO TEM SIDO LENTO E EXIGE CONSCIENTIZAÇÃO

Celebração do Dia Internacional da Mulher renova desafios em uma sociedade onde a violência ainda dá o tom

Da Redação

Era 8 de março de 1857. Operárias de uma fábrica de tecidos na cidade de Nova Iorque (EUA) faziam uma grande greve: ocuparam a fábrica, reivindicando melhores condições de trabalho. Queriam a redução na carga diária de trabalho para dez horas; equiparação salarial com os homens; e tratamento digno no ambiente de trabalho. Registros históricos informam que a paralisação inédita foi reprimida com violência: as grevistas teriam sido trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Cerca de 130 tecelãs morreram carbonizadas. Esse é o fato que deu origem ao Dia Internacional da Mulher, que passou a ser comemorado nos Estados Unidos em 1910 e entrou no calendário oficial da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1975. Nesses 160 anos, as questões ligadas ao feminino pouco mudaram, embora a mulher tenha feito diversas conquistas, como o direito ao voto, por exemplo. Ainda assim, no mês em que o mundo inteiro celebra mais um Dia Internacional da Mulher o que segue em pauta são a violência crescente; a desigualdade de condições no mercado de trabalho; o aumento do preconceito e a jornada dupla, incluindo a família.

“A situação da mulher no Brasil hoje ainda é de muita luta pela visibilidade social. Historicamente, o papel da mulher avançou junto com a sociedade, mas ainda temos muitos desafios”, avalia a psicóloga Thaís Santiago Barros, voluntária do Grupo Espírita Abrigo da Esperança (GEAE). “O maior desafio de todos para a mulher, é manter-se conectada a sua identidade feminina, a sua capacidade de amar, proteger e educar, ao mesmo tempo que encara os demais desafios como ganhar espaço num mercado de trabalho competitivo, ser respeitada, valorizada”. Presidente da Casa, Flavia de Paiva Barbosa destaca avanços recentes na posição da mulher brasileira, especialmente nos mecanismos de enfrentamento da violência, mas frisa que ainda há muito a ser feito.

“A última década representou um grande avanço. Mais conscientes, nós alcançamos conquistas significativas, como a aprovação da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio, além da implementação de diversas políticas pelo fim da violência contra a mulher. Mas ainda estamos longe do ideal”, afirma. A edição de 2015 do Mapa da Violência, produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), contabilizou 4,8 assassinatos a cada 100 mil mulheres no Brasil, dado que coloca o país em 5º lugar no ranking de nações com a maior incidência desse tipo de crime. “Precisamos enfrentar diariamente o desafio de desconstruir os hábitos que criam e reforçam o papel subserviente, incapaz e inferior que ainda insistimos em atribuir à mulher, diz Flávia”.

IGUALDADE E PROGRESSO – O papel da mulher, e sua importância, também foi esclarecido na codificação espírita. Uma das referências está em O Livro dos Espíritos, no capítulo IX da parte terceira, que fala sobre a Lei de Igualdade. “Os espíritos esclarecem que a diferenciação entre homens e mulheres só existe na organização física, tendo em vista que o Espírito não tem gênero, podendo encarnar em uma polaridade ou outra”, lembra Rodolfo Castro, voluntário do GEAE. “Além disso, homens e mulheres são iguais perante a Deus, uma vez que são dotados de inteligência para discernir o bem e o mal e possuem a faculdade de progredir”, cita. “Os espíritos destacam ainda que não existe a pretensa inferioridade das mulheres. Tal distorção se dá pelas instituições sociais e o pouco adiantamento moral que ainda existe na Terra e que devemos buscar a igualdade de direitos, de forma que quanto maior a emancipação das mulheres maior o nível de progresso da civilização”, diz.

“Com o advento do Espiritismo, soubemos da igualdade humana, esclarecendo o equívoco do passado, quando se achava que a mulher seria inferior ao homem”, endossa Edmir Freitas, vice-presidente do GEAE. “Por força das provações, o corpo mais frágil da mulher apenas representa a necessidade daquele Espírito melhor se desenvolver nas suas habilidades psíquicas e afetivas, fator esse de suma importância para se galgar o progresso necessário”. Enfatizando esse ponto, Edmir cita comentário do pensador espírita Léon Denis, para quem a doutrina espírita “restitui à mulher seu verdadeiro lugar na família e na obra social, indicando-lhe a sublime função que lhe cabe desempenhar na educação e no adiantamento da humanidade. Faz mais: reintegra-a em sua missão de mediadora predestinada, verdadeiro traço de união que liga as sociedades da Terra às do Espaço”.

DEBATE E EXEMPLO – Edmir destaca a presença marcante da mulher no arcabouço literário do Espiritismo, lembrando das irmãs Fox, Kate, Leah e Margareth, que despertaram a humanidade para a vida após a morte e a comunicabilidade entre os dois planos. Em 1848, elas comunicaram-se com o mascate que fora morto na casa em que moravam, crime ocorrido antes que elas se mudassem para o local. Edmir menciona, ainda, Yvonne do Amaral Pereira (1900 – 1984); Auta de Souza (1876 – 1901); Anália Emília Franco (1856 – 1919); Benedita Fernandes (1883 – 1947); e Adelaide Augusta Câmara (1874 – 1944 ). “Cada uma delas, a seu modo, trouxe grande contribuição ao Espiritismo”, justifica. “O Espiritismo possui em suas fileiras muitas mulheres anônimas que auxiliam nas mais diversas áreas da divulgação e prática espírita”, concorda Rodolfo.

A contribuição da mulher ao Espiritismo, assim como a abordagem da doutrina sobre o feminino abrem à casa espírita a oportunidade de estimular avanços na percepção do papel da mulher e de induzir a reversão de preconceitos. “A casa espírita pode contribuir promovendo um espaço fraterno de acolhimento, escuta e diálogo das mulheres; e também incluindo os temas sociais relacionados a emancipação da mulher nas aulas, palestras e debates, visando o esclarecimento de como tais temas são vistos pelo prisma da Doutrina Espírita”, aponta Thaís. “A casa espírita, cumprindo o papel de escola, nos oferece as ferramentas necessárias para trabalharmos as nossas questões mais intimas, buscando o esclarecimento e o desenvolvimento de nossos valores morais, nos desprendendo das amarras dos velhos conceitos e preconceitos que ainda carregamos”, concorda Flávia.

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