A MISSÃO DO PAI É CONDUZIR O CRESCIMENTO MORAL DOS FILHOS

Para diretor do Geae, hoje o principal desafio é resgatar valores éticos e morais

Entrevista com André Campos

Está chegando o Dia dos Pais, período de confraternização familiar, homenagens e troca de presentes. Mas também de reflexão. Em uma sociedade marcada por transformações, a paternidade vem embalada em novos formatos, muitas vezes desvinculada de questões de gênero e formalidade. As novas famílias, para além do modelo tradicional construído pelo casamento heterossexual, abrem espaço para diversas nuances de paternidade. Casais separados, uniões homoafetivas e mães/pais solteiros deixaram de ser exceção para compor um novo panorama social no Brasil e no mundo, impondo a necessidade de uma nova perspectiva sobre o assunto. E o que diz a doutrina espírita sobre a paternidade? Esse é o tema de entrevista com André Campos, diretor dos departamentos de assistência e de projeto social do Geae. Pai de cinco filhos, ele relembra as bases doutrinárias e comenta os novos desafios impostos à figura do pai. Em tempos tão modernos, você verá que a doutrina propõe conduta muito atual. Leia os principais trechos da entrevista:

Em agosto celebramos o dia dos país. Qual o papel do pai e como a doutrina espírita situa sua importância?

André Campos – Atualmente caminhamos para uma nova consciência do conceito de família. A Doutrina Espírita nos ensina que somos a mudança que vemos no mundo. Ao nos tornarmos seres mais conscientes das nossas responsabilidades, integramos novos valores às nossas relações. Em O Livro dos Espíritos, Allan Kardec pergunta se podemos considerar a paternidade como uma missão e os amigos espirituais respondem: “É, sem dúvida, uma missão, e é ao mesmo tempo um dever muito grande que obriga, mais que o homem pensa, sua responsabilidade diante do futuro. Deus colocou a criança sob a tutela de seus pais para que esses a dirijam no caminho do bem, e facilitou a tarefa, dando à criança um organismo frágil e delicado que a torna acessível a todas as influências.”. A paternidade, segundo o espiritismo, significa receber preciosos talentos, como nos ensinou Jesus, em Mateus, que devem ser bem trabalhados para produzirem bons frutos, ou seja, o crescimento moral daqueles que recebemos como filhos. Emmanuel , em O Consolador, nos diz que “A melhor escola é o lar, onde a criatura deve receber as bases do sentimento e do caráter.”. Essa a base doutrinária que sustenta a percepção em torno do papel do pai: aquele que trabalha para o crescimento moral de seus filhos.

Como estabelecer uma ponte entre essas premissas e o cenário atual, marcado por uma transformação no modelo familiar?

A.C.Vivemos os tempos das grandes transformações e de grandes desafios para o ser humano. Paradigmas estão sendo quebrados e conceitos diversos vêm sofrendo alterações, acompanhando o amadurecimento das consciências encarnadas e desencarnadas. E uma das mais inquietantes questões é aquela relacionada com a família homoafetiva e a adoção de filhos pelos casais homossexuais. Parafraseando Chico Xavier, quando questionado sobre o amor entre pessoas do mesmo sexo ele respondeu: “é amor meu filho?” e o interlocutor respondeu sim, e Chico concluiu: “se é amor não temos nada a dizer contra”. As teorias reducionistas, que enxergam a criatura apenas como expressão da matéria, têm que ser revistas com urgência para que vislumbremos um futuro de paz e fraternidade para a Humanidade, em consonância com as Leis Divinas. A exclusão social de raça, credo ou gênero é produto da ignorância e do egoísmo que segundo os amigos espirituais é a grande chaga da humanidade. Independentemente do gênero, devemos buscar a nossa reforma íntima, não cedendo aos impulsos instintivos do homem velho.  O que é lícito ao hétero o é também ao homossexual. Quanto à questão dos filhos de pais separados, lembramos que a estrutura familiar tem suas origens na esfera espiritual e em seu seio juntam-se todos aqueles que se comprometeram a desenvolverem na Terra a tarefa de recomeço aonde o perdão e o amor deverão ser conquistados num ambiente de fraternidade. O divórcio não exime de responsabilidades o casal na formação dos seus filhos. Os filhos não devem ser tratados como se fossem um objeto de partilha de bens.

Quais os desafios mais importantes colocados para a paternidade nos dias de hoje?

A.C. – O grande desafio que encontramos nos dias de hoje está relacionado à nossa percepção de valores. Multiplicamos o nosso patrimônio, mas reduzimos os nossos valores éticos/morais, estamos preocupados em “ganhar a vida” e não em vivê-la com harmonia, temos mais mensagens e menos comunicação. Os laços que nos unem parecem mais superficiais e inconsistentes. Na nossa inversão de valores, valemos pelo que temos e não pelo que somos. Procuramos “educar” os nossos filhos para que eles vençam na vida e nos esquecemos de lhes ensinar a serem felizes. Na busca desenfreada pela independência financeira estamos criando profissionais frustrados e deprimidos.  Matamos em nossos filhos o poeta, o músico, o pintor que poderiam trazer ao mundo páginas mágicas de profunda sensibilidade e beleza para reduzi-los a autônomos na busca desenfreada de dinheiro. Estamos terceirizando a educação dos nossos filhos. Precisamos estar mais presentes em suas vidas. É pelo exemplo que educamos. Eles precisam se sentir amados, aceitos e valorizados para poderem aproveitar ao máximo a oportunidade bendita da reencarnação.

Que atributos tornam-se mais necessários para esse “novo” pai?

A.CPara nos tornarmos bons pais, precisamos nos autoconhecer, identificando os nossos pontos falhos e as nossas virtudes. Educamos pelo exemplo e que melhor exemplo para os nossos filhos do que reconhecermos que não somos infalíveis ou donos da verdade? Que somos humanos ainda em estágio de aprendizagem e que, portanto, podemos errar e errando aprender novos caminhos? Ensinar que somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, tendo que assumir-lhes as consequências.

Como a doutrina espírita pode ajudar aqueles que tenham assumido essa responsabilidade?

A.C. – Sabemos que a família é a célula mater da sociedade e que precisa ser fortalecida pelos laços do amor e do perdão. A Doutrina Espírita é fundamentada na pedagogia do amor ensinada pelo Cristo, orientando-nos que a família não é constituída apenas por vínculos biológicos, mas também é o reencontro de espíritos ligados pelos laços dos compromissos assumidos em existências pretéritas, trazendo a sagrada oportunidade do reajuste das faltas passadas, na liberação das consciências culpada pelas falhas cometidas em vidas anteriores. É nesse jardim de novas oportunidades que deve florescer o perdão, sempre adubado pelo amor incondicional e regado pelas lágrimas abençoadas do trabalho renovador. A família é o grande educandário de almas, palco de renovações e crescimentos espirituais.

O que devemos celebrar no Dia dos Pais?

A.C. – Que possamos celebrar o amor, a amizade, a cumplicidade. Não vemos a necessidade dos convencionalismos comerciais que nos exigem a troca de presentes materiais. Que possamos trocar sorrisos, abraços e muito amor. Que os nossos pais, encarnados e desencarnados, possam sentir os nossos agradecimentos pelas horas mal dormidas, pelo ombro amigo, pelas lágrimas escondidas, pelo amor em todas as horas.

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