Quando a dor estreita o horizonte: suicídio entre cérebro, mente e espírito

Entenda o suicídio pela perspectiva da Psicologia, das Neurociências e do Espiritismo, com foco no acolhimento, na prevenção e no cuidado integrado.

Por: Rodolfo Castro –  psicólogo, palestrante espírita-DF
Artigo publicado originalmente no Jornal Brasília Espírita – ANO 53 – Nº 262 

Falar sobre suicídio é falar sobre morte, mas talvez seja, antes de tudo, falar sobre sofrimento. Quem pensa em tirar a própria vida nem sempre deseja, exatamente, morrer. Muitas vezes, deseja que uma dor, percebida como insuportável e interminável, deixe de existir. A diferença parece pequena, mas muda profundamente a maneira como olhamos para quem chegou a esse limite.

A Psicologia conhece bem esse território. Desesperança, dor psíquica, isolamento, sensação de aprisionamento e dificuldade de imaginar alternativas aparecem com frequência nos estudos sobre o comportamento suicida. Em determinados momentos, o futuro parece deixar de oferecer possibilidades. Não é necessariamente que essas possibilidades tenham desaparecido; elas desapareceram do campo de visão daquela pessoa.

As Neurociências acrescentam outra dimensão a essa compreensão. Estudos sobre pensamentos e comportamentos suicidas vêm encontrando alterações em sistemas cerebrais envolvidos na regulação das emoções, no processamento de informações sobre si mesmo, na avaliação de possibilidades, na flexibilidade cognitiva e no controle do comportamento. Isso não significa que exista um “cérebro suicida”, muito menos que uma imagem cerebral possa explicar por que alguém decide morrer. Significa reconhecer que o sofrimento intenso também repercute na maneira como o cérebro processa o mundo, a si mesmo e o futuro.

Talvez possamos imaginar uma crise suicida como um progressivo estreitamento do horizonte.

Quando estamos diante de uma paisagem ampla, enxergamos vários caminhos. Podemos não saber qual seguir, mas percebemos que eles existem. No sofrimento extremo, essa paisagem pode se estreitar até parecer haver apenas uma saída. Nesse momento, dizer simplesmente “pense positivo”, “tenha fé” ou “há pessoas em situação pior” não amplia o horizonte. Às vezes, aumenta ainda mais a distância entre quem sofre e quem tenta ajudar.

É justamente nesse ponto que o Espiritismo pode oferecer uma contribuição importante, desde que não pretenda substituir a Psicologia, a Psiquiatria ou qualquer cuidado em saúde.

Para a Doutrina Espírita, a existência corporal constitui uma etapa da trajetória do Espírito, e a morte não representa o fim da vida. Essa concepção modifica profundamente o significado atribuído à existência e ao sofrimento. Entretanto, afirmar a continuidade da vida não deveria transformar-se em instrumento de medo dirigido à pessoa em crise.

Durante muito tempo, discursos religiosos sobre o suicídio enfatizaram culpa, punição e consequências após a morte. A própria literatura espírita apresenta reflexões sérias sobre as consequências do ato suicida. Mas reduzir a abordagem espírita a advertências sobre aquilo que poderá acontecer depois da morte seria empobrecer uma doutrina cuja ética encontra na caridade uma de suas expressões fundamentais.

Diante de alguém que deseja morrer, talvez a primeira pergunta espírita não devesse ser: “O que acontecerá com essa pessoa se ela se matar?”, mas: “O que podemos fazer para ajudá-la a permanecer viva?”

Essa mudança de pergunta é significativa.

Se a Psicologia mostra que o sofrimento pode produzir desesperança e sensação de aprisionamento, se as Neurociências indicam que estados de intenso sofrimento podem estar associados a alterações nos processos de regulação emocional, flexibilidade e avaliação de alternativas, a espiritualidade pode contribuir oferecendo pertencimento, significado, esperança e vínculos. Não como tratamento isolado, mas como recurso possível dentro de uma rede de cuidado.

Isso também exige responsabilidade das instituições espíritas.

Nem toda tristeza é influência espiritual. Depressão não é ausência de fé. Pensamentos suicidas não devem ser interpretados automaticamente como obsessão. E encaminhar alguém para atendimento psicológico ou psiquiátrico não significa diminuir a importância do passe, da prece, do atendimento fraterno ou do apoio espiritual. Uma dimensão não exclui a outra.

Talvez possamos (e devemos) compreender o ser humano justamente pela integração dessas dimensões. Há um cérebro que processa a experiência, uma mente que atribui significados e uma alma que, na perspectiva espírita, transcende ambos e continua sua trajetória para além da existência corporal.

Quando alguém pensa em morrer, essas diferentes perspectivas convergem para uma responsabilidade comum: ampliar novamente o horizonte.

Às vezes isso começa com algo muito simples: permanecer ao lado, escutar sem julgamento, reconhecer a dor, favorecer ajuda profissional e sustentar, junto com aquela pessoa, possibilidades que naquele momento ela já não consegue enxergar.

A esperança, nesse contexto, não precisa significar acreditar que amanhã tudo estará resolvido. Pode significar apenas admitir que o sofrimento de hoje não possui autoridade para decretar todo o futuro.

Para quem sofre, talvez seja difícil acreditar nisso.

É justamente por isso que, algumas vezes, alguém precisa acreditar por ela, até que consiga novamente fazê-lo por si mesma.


Referências

  • BECK, Aaron T.; BROWN, Gregory; BERCHICK, Robert J.; STEWART, Bonnie L.; STEER, Robert A. Relationship between hopelessness and ultimate suicide: a replication with psychiatric outpatients. American Journal of Psychiatry, v. 147, n. 2, p. 190-195, 1990. DOI: 10.1176/ajp.147.2.190.
  • FRANKLIN, Joseph C. et al. Risk factors for suicidal thoughts and behaviors: a meta-analysis of 50 years of research. Psychological Bulletin, v. 143, n. 2, p. 187-232, 2017. DOI: 10.1037/bul0000084.
  • KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
  • KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
  • KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo. Tradução de Manuel Justiniano Quintão. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.
  • ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. LIVE LIFE: an implementation guide for suicide prevention in countries. Geneva: World Health Organization, 2021.
  • XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo Espírito André Luiz. Brasília, DF: Federação Espírita Brasileira, 2013.

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