AUTORRESPONSABILIDADE, AUTOCONHECIMENTO E ESTRATÉGIAS DE REPARAÇÃO DA CULPA

A culpa é “a consciência afetiva do estado de falta moral no qual alguém se colocou pela ação ou intenção de cometê-la”.

A culpa é “a consciência afetiva do estado de falta moral no qual alguém se colocou pela ação ou intenção de cometê-la”.[ii] O benefício desse sentimento praticamente não existe, a não ser, temporariamente, pelos mecanismos de defesa que o circundam.

A maioria das pessoas que se utilizam desses mecanismos de defesa são aquelas que, mobilizadas pela culpa, se mantêm num círculo vicioso de culpa e autopunição, como uma maneira ineficaz de buscar a reparação dos erros.

Nesse aspecto, os mecanismos de defesa atuam de várias maneiras.

Em primeiro lugar, as pessoas defendem-se de “entrar em contato” com os motivos pessoais e ambientais que deram causa ao erro. Imaturas, valorizam em excesso o que os outros dizem e pensam, e faltando-lhes independência interior (autonomia), nem sempre reúnem condições de julgar o próprio comportamento.[iii] Consequentemente, mostrando-se culpadas, conformam-se com a piedade ou aprovação alheia, mesmo quando não há, de fato, a aprovação do comportamento.

Em segundo lugar, as pessoas evitam confrontar-se com a vergonha por não ter tido força de vontade suficiente para não ceder a um comportamento em desacordo com princípios e normas pré-estabelecidas.

Em terceiro lugar, a defesa sob a forma da negação e projeção indica um método útil de transferência da responsabilidade do próprio comportamento para os outros e para o que aconteceu no passado. No entanto, trata-se de uma fuga ao esforço de mudança individual no presente e dos riscos que a acompanham.

Todas as formas de defesa supracitadas fazem crer que a culpa seria a percepção da responsabilidade diante de uma ocorrência passada, sem, no entanto, a coragem para resolvê-la.

Um sentimento de impotência diante do conflito imobiliza a pessoa, mantendo-a inerte e aborrecida no presente, em consequência de um comportamento passado. Esse grau de imobilização pode ir de uma ligeira insatisfação a uma severa depressão.

Essa imobilização que, por sua vez, pode levar a processos psicopatológicos é ineficaz, visto que “não há culpa que seja capaz de desfazer alguma coisa”. [iv]

Joanna de Ângelis[v] alertou para o fato de que o passado já aconteceu e que suas fundações não podem ser ignoradas e nem evitadas, cabendo ao indivíduo desarraigá-las de seu íntimo.

A autora orientou que “a análise tranquila das ocorrências infelizes desperta a consciência para encontrar meios de diminuir-lhes as consequências, criando condições propiciatórias para um futuro mais equilibrado, através das oportunidades e realizações presentes” (p. 103).

E em se tratando de autoanálise e autoconhecimento, a questão 919 de “O Livro dos Espíritos” [vi] é quase um “tratado” sobre o tema.

Santo Agostinho, ao ser questionado sobre qual seria o meio prático e mais eficaz para se melhorar nesta vida, e resistir aos arrastamentos do mal, respondeu: “Um sábio da antiguidade vos disse: Conhece-te a ti mesmo”.

Allan Kardec aprofundou a temática perguntando qual seria o meio de conseguir conhecer a si mesmo. Santo Agostinho, de modo objetivo, respondeu a questão citando o próprio exemplo, e rememorou a técnica por excelência do autoconhecimento: “[…] ao fim da jornada, eu interrogava minha consciência, passava em revista o que fizera, e me perguntava se não faltara algum dever, se ninguém tinha nada a se lamentar de mim. […] Aquele que, cada noite, lembrasse todas as ações da jornada e se perguntasse o que fez de bem ou de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião para o esclarecer, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar […] perguntai-vos o que fizestes e com qual objetivo agistes em tal circunstância; se fizestes alguma coisa que censurais em outrem; se fizestes uma ação que não ousaríeis confessar […] Examinai o que podeis ter feito contra Deus, contra vosso próximo, e enfim, contra vós mesmos”.

Esse exercício de autoconhecimento proposto por Santo Agostinho é árduo e doloroso. Isso porque ele impele à conduta de autorresponsabilidade e a vontade de mudança, duas atitudes que as pessoas estão se esquivando na atualidade.

De certa forma, o psiquismo está mais propenso a sentir-se em equilíbrio pela manutenção de velhos hábitos nocivos, sendo que o verdadeiro equilíbrio se dá pela renovação e aquisição de novos hábitos, mais saudáveis, funcionais e isentos de cargas que desarmonizam o aparelho físico-espiritual.

Mas o adiamento da autoconscientização tem limite, pois chega o momento que o sofrimento reveste-se de distúrbios de comportamento e de natureza orgânica, o que obriga os indivíduos ao exame das circunstâncias, das emoções, das ideias não digeridas, dos complexos, das contrariedades, dos desejos frustrados, das próprias imperfeições morais. Consequentemente, o exercício da autoanálise faz-se inadiável, pois cada enfermidade física traz um componente psíquico, emocional ou espiritual correspondente.

O autoconhecimento permite perceber tudo que é necessário transformar em si mesmo, entendendo os pontos vulneráveis e as limitações. Para tanto, é necessário treinamento no campo do pensamento reflexivo sobre as sensações internas e externas e as tendências que se teme e se foge. [vii]

Nesse sentido, o autoexame proporcionará uma avaliação do que se é, de como se está, fornecendo informações para tornar-se melhor.

Ao autoexame é imprescindível somar-se a autorresponsabilidade, que implica: (1) em assumir as experiências pessoais, para atingir uma real compreensão dos acertos e dos desenganos; (2) na determinação para responder pelas consequências das atitudes adotadas e (3) em decidir por si mesmo para onde ir e descobrir a razão do próprio querer. [viii]

Para tanto, é necessário identificar o erro, o problema, compreender e aceitar o acontecimento, buscando a libertação do sentimento perturbador de culpa e os meios para reparação

E quais seriam as orientações concernentes a uma postura de libertação da culpa?

Para se livrar do complexo de culpa é necessário, primeiramente, a avaliação e reestruturação de velhas crenças sabotadoras. Uma delas é a de que “reencarna-se para pagar, indenizar ou ressarcir”. Na verdade, reencarna-se para educar-se pela reparação dos erros do passado. Portanto, as criaturas reencarnadas na Terra não estão aqui para “pagar”, mas para se reabilitarem. Sendo assim, o objetivo da reencarnação é a educação do Espírito quanto às leis de Deus. [ix]

Ainda nesse tentame, é importante considerar que ninguém é destituído de valores positivos. Qualquer pessoa que tenha se envolvido, no passado, em problemas e erros, certamente também gerou simpatias e agiu corretamente.

Nessa experiência de libertação da consciência culposa, a atitude de autoperdão tem valor inestimável. Uma maneira de promovê-la é considerar o nível de evolução no qual se estagiava quando se agiu incorretamente, e reconhecer que se houvessem mais conquistas intelecto-morais, possivelmente, a ação teria sido diferente.

Autoperdoar-se é dar-se oportunidade de crescimento interior, de reparação dos prejuízos, de aceitação das próprias estruturas, que deverão ser fortalecidas.

O reconhecimento do erro é também um passo importante para a recuperação pessoal e apaziguamento com o ofendido. Além disso, é necessário comprometer-se a não cometer mais o ato gerador do conflito culposo e, não menos importante, aceitar toda e qualquer consequência advindo do mesmo.

Diante disso, manter uma disposição psicológica para a renovação do comportamento influenciará na Lei de Causa e Efeito, proporcionado assim respostas emocionais gratificantes. [x]

A renovação do comportamento deve incluir algumas estratégias práticas para a eliminação da culpa no dia-a-dia, que podem ser:

  • Gravar na consciência que o sentimento de culpa não mudará o passado, nem tornará a pessoa melhor;
  • Verificar porque a culpa tem sido uma necessidade, e isto se dá pela investigação do que está se evitando no presente, visto que a mente permanece cristalizada no passado.
  • Buscar aprovar-se para que a aprovação dos outros não seja tão mais importante ou agradável. Uma vez que não precisará de aprovação, desaparecerá a culpa pelo comportamento não aprovado;
  • Registrar num diário de culpa quando, por que e com quem foi disparado o sentimento de culpa;
  • Rever os próprios sistemas de valores. Em que valores se acredita e em quais se finge acreditar?
  • Avaliar as consequências reais de próprio comportamento. Verificar se os resultados das próprias ações são agradáveis e produtivos para si. [xi]


Além disso, algumas atitudes e práticas psicológicas são recomendáveis ao trabalho de reparação, quais sejam:

  • Colocar-se diante das consequências dos atos com a disposição de resolvê-los corajosamente. E aprender a não fazer mais o que se fez;
  • Descrever o erro cometido detalhadamente;
  • Enumerar as razões pessoais que levaram ao ato;
  • Listar outras maneiras que poderiam ter sido utilizadas para a realização daquele ato;
  • Identificar atitudes, pensamentos e sentimentos que gostaria de evitar;
  • Verificar que leis espirituais não foram respeitadas pela ação equivocada;
  • Estabelecer um plano realista e executável para agir de acordo com as leis Divinas, anteriormente desconsideradas por ação infeliz ou ignorância. [xii]

Conclui-se que a reparação da culpa será uma experiência renovadora e de elevação do ser. Para isso é necessário coragem de enfrentar-se e querer realmente modificar-se.

Nesse aspecto, Joanna de Ângelis instruiu: “cada vez interrogar-se mais a respeito de quem é, e quais possibilidades de que se pode utilizar para o desenvolvimento íntimo, significa um meio adequado para interpenetrar-se. Sistematicamente manter-se vigilante contra os hábitos prejudiciais da autocompaixão, da censura ao comportamento dos outros, da autopunição e autodesvalorização, da inveja e de outros componentes do grupo das paixões dissolventes e anestesiantes. Preencher os lugares que ficarão vagos com a eliminação desses sórdidos comparsas mentais, com a presença do altruísmo da fraternidade e do autoamor”. [xiii]

 Artigo relacionado ao autor: 

DESESPERANÇA: das causas à terapêutica

DA CULPA À REPARAÇÃO: mecanismos para o aprimoramento moral


[i] Autodescobrimento: Uma Busca Interior. Pelo espírito Joanna de Ângelis; psicografado por Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 17ª ed., 2013. (Série Psicológica, vol. 6), p.134; [ii] Paiva, Geraldo José de (Org.). Entre necessidade e desejo: Diálogos da Psicologia com a religião. São Paulo: Loyola, 2001; [iii] As dores da alma. Pelo espírito Hammed; psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 13ª ed., 2003, p. 101; [iv] Dyer, Wayne W. Tradução: Mary Deiró Cardoso. Seus pontos fracos. 33ª ed., Rio de Janeiro: Best Seller, 2013; [v] Autodescobrimento: Uma Busca Interior. Pelo espírito Joanna de Ângelis; psicografado por Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 17ª ed., 2013. (Série Psicológica, vol. 6); [vi] O livro dos Espíritos. Allan Kardec, tradução de Salvador Gentile, revisão de Elias Barbosa. Araras, SP: IDE, 141ª ed., 2002; [vii] Os prazeres da alma. Pelo espírito Hammed, psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 2003; [viii] As dores da alma. Pelo espírito Hammed; psicografado por Francisco do Espírito Santo Neto. Catanduva, SP: Boa Nova Editora, 13ª ed., 2003; [ix] Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz de. Psicologia e Espiritualidade. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2003; [x] Autodescobrimento: Uma Busca Interior. Pelo espírito Joanna de Ângelis; psicografado por Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 17ª ed., 2013. (Série Psicológica, vol. 6); [xi] Dyer, Wayne W. Tradução: Mary Deiró Cardoso. Seus pontos fracos. 33ª ed., Rio de Janeiro: Best Seller, 2013, pp. 132-136; [xii] Novaes, Adenáuer Marcos Ferraz de. Psicologia e Espiritualidade. Salvador: Fundação Lar Harmonia, 2003, pp. 123-124; [xiii] Autodescobrimento: Uma Busca Interior. Pelo espírito Joanna de Ângelis; psicografado por Divaldo Pereira Franco. Salvador: LEAL, 17ª ed., 2013. (Série Psicológica, vol. 6), pp. 111-112.

 

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2 Comentários

  1. Mensagem muito importante para o tempo atual. Esclarecimentos e informações que temos de incorporar aos poucos no nosso dia-a-dia pra não perder nadinha. Obrigada!

    1. É mesmo Ana Paula. Acho que o grande desafio é essa incorporação e uso das técnicas para lidar com a culpa até chegar no ponto de aprendizado em que não nos sabotaremos mais através da culpa, ou, pelo menos, nos sabotaremos menos. E a responsabilidade, depois de obtermos o conhecimento, é maior. Vambora colocar o aprendizado em prática e não perder nadinha… 🙂

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