Mandatos divinos

Mauro S
Mauro de Mesquita Spínola

A principal causa da centralização de poder no centro espírita tem sido a alegação de existência de mandato conferido pela “espiritualidade superior”. Dirigentes, médiuns e espíritos, em geral visando o melhor para suas casas espíritas, acabam por estabelecer critérios e procedimentos de fechamento do poder. O periódico espírita Espiritismo e Unificação realizou um estudo sobre o poder no movimento espírita que identifica esse problema:

“Nos nossos meios, a revelação mediúnica tem sido usada como instrumento para avalizar ou determinar um tipo de mandato divino, seja ele circunscrito a um centro, a um médium ou dirigente, seja, em maior amplitude, através de determinadas organizações federativas. Todos alegam possuir um certo poder divino, que lhes teria sido dado pela Espiritualidade Superior.

“A ignorância generalizada do Espiritismo, mesmo nos meios mais dinâmicos, voltados, quase sempre, para o fator místico, se traduz no fascínio que a mediunidade exerce. Sem dúvida, esse fascínio é uma clara acepção de Poder. O médium, nos nossos meios, extravasa o sentido de medianeiro, de intercomunicador, para se transformar em autoridade, capaz de dominar não somente um núcleo específico, mas projetar-se por toda a coletividade. Um exemplo típico é que certos médiuns se transformam em oráculos e muitos nada fazem sem consultá-los e suas opiniões já não são analisadas, mas ao contrário são ordenações infalíveis.

“Por isso identificamos o Poder clássico fluir, sem esforço, no médium-principal, que aconselha e dita ordens como verdades irrecorríveis; podemos constatá-lo no Guia Espiritual que domina grupos, não permitindo iniciativas dos encarnados; ou verificamos no presidente perpétuo, no “dono do centro”.(1)

Médiuns, dirigentes e espíritos assumem muitas vezes papéis messiânicos e de infundada autoridade nos centros, sem que haja qualquer motivo para se atribuir a eles rótulos diferenciadores. Em momentos de divergência ou discordância, invocam sua autoridade divina para impor suas posições. É bem verdade que essas são atitudes humanas compreensíveis, mas é necessário que a estrutura do centro não as incentive.

Médiuns, dirigentes e espíritos possuem papéis relevantes no centro, é importante frisar. O que deve ser evitado é o seu endeusamento, a mistificação e o engrandecimento imotivado de suas funções, que prejudicam a eles e ao grupo.

É indisfarçável a posição desconfortável dos dirigentes e dos médiuns-principais que a todos têm que amparar, aconselhar, e em todos os momentos têm que apresentar as soluções finais para cada assunto. Uma situação que eles, juntamente com seus seguidores, criaram.

Não pode ser esquecido também que o poder existe, sendo um espaço a ser ocupado. É sempre possível identificar, numa estrutura de poder centralizado, aquele ou aqueles que o exercem, por um lado, e aqueles que, apaticamente, se permitem ficar longe dele. Alguns até reclamam, mas não ocupam seu espaço.

Seria muito difícil nesses casos identificar nos “vilões autocráticos” a causa única da centralização. Por trás de um dono de centro existe muitas vezes uma história de dedicação e luta solitária por uma causa.

 

CENTRO ESPÍRITA: OS CINCO FATORES CRÍTICOS PARA UMA REFORMA ESTRUTURAL

Mauro de Mesquita Spínola

São Paulo-SP, Brasil

(1)     DICESP. O Poder e o Movimento Espírita, 1981, Santos-SP – Dicesp (p 5-6)

“Os termos “médium principal” e “dono de centro” designam, respectivamente, o médium supostamente mais importante no centro (incumbido, geralmente, de receber as comunicações do espírito orientador — guia — do grupo) e o dirigente que ocupa continuamente as funções de presidente e coordenador das atividades da casa. “Essas figuras existem, sob diversas formas, em vários grupos.”

  

Mauro de Mesquita Spínola é 2º vice-presidente da Confederação Espírita Pan-Americana – CEPA: http://cepabrasil.blogspot.com.br/

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