TRABALHO, SOLIDARIEDADE E TOLERÂNCIA

andre versáo 235x235 jpgNo movimento espírita a gente enfrenta uma contradição muito forte entre aquilo que a gente busca e aquilo que a gente prega. Que é a ideia da fraternidade, que é o nosso sonho de sociedade, fora do qual não tem razão de ser o Espiritismo.

Se não conseguimos nos amar ainda, aprendamos a nos tolerar, aceitando as limitações e deficiências uns dos outros.

Parafraseando André Comte Sponville no Livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, “a simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria, dos santos, assim a tolerância é sabedoria e virtude para aqueles que – todos nós – não são uma coisa nem outra.”

 “Um velho descuido da convivência humana é buscar corrigir as pessoas para que se encaixem em nossos modelos de expectativas e transformar as diferenças do outro em defeitos. É um traço de nossa imperfeição e que deixa claro que estamos muito mais ocupados em cultivar severidade para com a melhora dos outros e desatentos da mais importante e única tarefa na qual verdadeiramente temos irrestrita capacidade de realizar: a nossa melhora pessoal. A necessidade de diminuir o valor dos esforços alheios é um vício de proporções extraordinárias, porque dando exagerada importância às comparações, o orgulhoso passar a ser “fiscal” dos atos alheios, procurando motivos para realçar-se. Mas manter aparências é doloroso. O melhor é conscientizar-se da necessidade da melhora individual e buscar isso como meta pessoal, continuamente.” (Trecho pinçado de uma matéria de Orson Peter Carrara, do jornal O Clarim,)

Num mundo onde a violência predomina o diálogo, a convivência respeitosa e a disposição de ouvir o outro e solucionar conflitos sem confrontos, torna-se questão de sobrevivência. Alguns mais pessimistas antecipam o apocalipse, o fim do mundo. Porém, a felicidade é possível, embora deva ser conjugada no futuro, pois no presente apenas ansiamos por ela.

A convivência com base no diálogo também é possível, mas depende de determinação e de boa vontade, de disposição de espírito e abertura para um longo e talvez penoso exercício de tolerância baseada no respeito pelas razões alheias.

O Espiritismo, desde a sua aparição sistematizada no século XIX até hoje, tem sido vítima, sobretudo, da prática da intolerância pelos nossos irmãos de outras filosofias, crenças religiosas e do meio científico. Como exigir, portanto, tolerância externa se não a exercitamos dentro de nossas fileiras?”

Há muito a aprender sobre respeito, amor e tolerância nos agrupamentos espíritas, principalmente porque o Espiritismo só poderá influenciar os vários campos do conhecimento humano se conseguir se inserir de maneira harmoniosa junto àqueles que atualmente pensam divergentemente de seus postulados. As idéias espíritas predominarão na Terra um dia pelo alteritarismo(1) de relacionamento e não pelo autoritarismo de comportamento.”Conselho Federativo Regional-04 representante da FEEB na cidade de Alagoinhas-Ba. 

Costuma-se encarar a dissidência do pensar como oposição deliberada. Taxa-se até de obsedado àquele que queira defender de maneira equilibrada um ponto de vista. Na realidade, adota-se uma postura de discriminação. Pior. Trata-se o diferente com a indiferença. Joga-se por terra a própria condição da filosofia que pressupõe como base do conhecimento o livre pensar, a especulação sadia. O comportamento corrente, paradoxalmente, é dogmático. Joga-se por terra o emblema kardequiano que destaca a tolerância como princípio básico das relações do espírita verdadeiro. Joga-se por terra, finalmente, a própria condição cristã do amar uns aos outros que não admite o repúdio ao seu irmão simplesmente por ele possuir uma ótica diferente de enxergar a mesma realidade.

A nossa meta primordial é aprendermos a amarmo-nos uns aos outros, para que tudo o que for criado em nome da causa espírita reflita a essência do Espiritismo em nossas movimentações. Nossa meta essencial é o amor, a atitude que reflete Deus em nós.

Levantemos a bandeira da ética e da tolerância em torno da qual ser-nos-á possível atrair pela ação, mais que pelo discurso, ensejando a formação de polos de congraçamento ecumênico entre nós, os espíritas com diversidade de ideias, mas num único sentimento, o do amor exalando a fraternidade.

Tomemos como lema a tríade inspirada do Codificador “trabalho, solidariedade, tolerância” (Obras Póstumas, Biografia de Kardec), e cerremos esforços na campanha para que essa indicativa torne-se o programa da Casa e do movimento espírita mundial.

O trabalho opera as mudanças pela força das circunstâncias, a tolerância cria o clima indispensável para torná-las possíveis e a solidariedade é a mola propulsora capaz de fazê-las acreditáveis.

Por que chamar Jesus se não atentamos para Sua presença no desenvolvimento de relações eticamente ajustadas com Seus ensinos?

Enveredemos pela religião, pela filosofia ou pela ciência, estudemos o Espiritismo ou o Evangelho, adotemos essa ou aquela prática com a qual melhor nos afeiçoemos, tudo isso pouco importa se não tivermos amor. Recordemos o apóstolo Paulo em sua belíssima poesia: “Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”.

 

(1) Alteridade é  a capacidade de conviver com o diferente, de se proporcionar um olhar interior a partir das diferenças. Significa que eu reconheço “o outro” também como sujeito de iguais direitos. É exatamente essa constatação das diferenças que gera a alteridade.

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