DIÁLOGO, RESPEITO E FÉ PARA ENFRENTAR O CHAMADO DO SUICÍDIO

Quanto mais falarmos sobre isso, mais ajudaremos a reduzir sua incidência, poupando os jovens

Da Redação

Quanto mais falarmos sobre isso, mais ajudaremos a reduzir sua incidência, poupando os jovens

A Baleia Azul tomou conta do noticiário e das redes sociais no mês de abril, colocando em evidência um tema tradicionalmente tratado com reserva: a prática de suicídio. O jogo, que leva esse nome, teve seu primeiro registro na Rússia e pode ter levado à morte mais de 130 jovens pelo mundo, induzidos a cumprirem tarefas cujo ápice é a própria morte. Com registro também no Brasil, o jogo Baleia Azul criou uma onda de pânico e derrubou o tabu que tornava o suicídio um assunto proibido – impotente diante da tragédia, a sociedade evita debater o tema e refreia a busca por medidas preventivas que possam impedí-lo. No Brasil, o suicídio entre jovens cresce de modo lento e continuado: sua incidência na população de 15 a 29 anos subiu de 5,1 por 100 mil habitantes em 2002 para 5,6 em 2014 – um aumento de quase 10% em 12 anos, segundo dados do Mapa da Violência 2017, divulgado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso). Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 788 mil pessoas morreram por suicídio em 2015: é cerca de 1,5% de todas as mortes registradas no mundo. Naquele ano, o suicídio foi uma das 20 principais causas de morte – entre jovens de 15 a 29 anos, foi a segunda maior causa de óbito. Diante desse quadro, o que fazer? Existem sintomas? É possível prevenir? A casa espírita pode ajudar? São essas algumas das perguntas que o Boletim Informativo do Geae busca responder nessa reportagem, cujo objetivo é alertar e esclarecer a todos sobre um tema de tanta relevância; assim como amparar aqueles que possam estar enfrentando o assunto nesse momento.

“Pesquisas apontam que, além de questões demográficas e individuais, fatores sociais e econômicos são responsáveis por esse aumento no número de casos”, informa Rodolfo Castro, psicólogo clínico e trabalhador do Grupo Espírita Abrigo da esperança (GEAE). “Verifica-se que questões socioeconômicas desfavoráveis, especialmente, aquelas que promovem prejuízo do bem-estar coletivo e que acarretam, a curto e médio prazo, aumento da violência, da competitividade; da insensibilidade e individualismo nas relações, são fatores promotores de desesperança e perspectiva de futuro reduzida que, em última análise, se refletem nas estatísticas de suicídio”.

Segundo ele, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) publicaram, em 2014, uma cartilha descrevendo os fatores de risco associados ao suicídio: (a) doenças mentais: quadros de depressão, transtorno bipolar, transtornos mentais decorrentes do uso de álcool e outras substâncias, transtornos de personalidade e esquizofrenia; (b) aspectos demográficos e sociais: verifica-se maior prevalência em homens solteiros, separados ou viúvos, com faixa etária variando entre 15 e 30 anos e acima dos 65 anos. Na maioria dos casos, não têm filhos, encontram-se desempregados ou aposentados, moram em áreas urbanas e sofrem de isolamento social; (c) aspectos psicológicos: histórico de perda recente, baixa resiliência, personalidade impulsiva, agressiva ou humor instável, histórico de abuso físico ou sexual e desesperança, desamparo e desespero; (d) condição de saúde limitante: doenças orgânicas incapacitantes, dores crônicas, doenças neurodegenerativas, lesão medular, tumores malignos e HIV/Aids. A OMS publicou lista com os principais sintomas – veja quadro nessa página.

DIÁLOGO E RESPEITO – Com larga experiência clínica, Rodolfo deixa clara a dificuldade para definir a causa do suicídio, muitas vezes associado à depressão. “Em linhas gerais, é um fenômeno complexo, sempre há a convergência de diversos fatores que levam ao suicídio. Trata-se, portanto, de uma crise psicoafetiva, na qual o indivíduo se vê sem recursos emocionais e, portanto, sem escolhas, para lidar com as situações dolorosas que o acometem”, explica. “Tal crise psicoafetiva pode ser de curta ou longa duração e nem sempre está vinculada a um quadro depressivo ou outro transtorno mental, mas, verifica-se sempre a presença de níveis crescentes de desesperança, que não é, necessariamente, depressão”.

Para ele, tanto a prevenção quanto a intervenção, no caso de ser identificada a tendência, exigem a mesma ação: diálogo, respeito e compreensão. “Tabu gera estigma e estigma gera isolamento”, avisa, estimulando que o assunto seja tratado com naturalidade. “É importante também estar atento aos sinais que podem indicar comportamentos suicidas. Identificando comportamentos suspeitos, converse”, recomenda destacando a importância de o diálogo dar-se de forma cordial, com atenção e calma. “Fale sem julgamentos, sobretudo, religiosos e morais. A busca da espiritualidade, da religiosidade é um fator protetivo, mas, julgamentos morais ou religiosos podem instilar mais culpas”.

O psicólogo recomenda atenção aos sinais que, reconhecidos, devem merecer atenção de profissionais de saúde, especialmente, àqueles especializados em saúde mental – psicólogos, assistentes sociais e psiquiatras. “O suporte conjunto de amigos, família e profissionais também é fundamental para impedir que vidas sejam ceifadas”, diz Rodolfo.

RESGATE DA CONFIANÇA – O suicídio foi tratado em diversas obras da literatura espírita, desde a codificação de Alan Kardec – em O Livro dos Espíritos (questões 943 a 957) e no O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. V) – até obras basilares de autores respeitados – como O Consolador, de Chico Xavier/Emmanuel (Questão 154); Religião dos Espíritos; de Chico Xavier/Emmanuel (capítulo 48); O Pensamento de Emmanuel, de Martins Peralva (pág. 117, 178, 214 e 217); Mãos Estendidas, de Luiz Sérgio (cap. V, pág. 29 e 99); e Memórias de Suicida, de Yvonne A. Pereira. É um tema desafiador também para a doutrina, qualificado como uma transgressão à lei divina. “O suicídio é um ato individual, deliberadamente realizado para encurtar a própria vida. Ocorre em todas as camadas sociais e por variados motivos, desde problemas financeiros, depressão, amores não correspondidos”, avalia Bruno Elias Borges, orador espírita e trabalhador do GEAE.

Ele lembra passagem de O Livro dos Espíritos, na questão 943, em que Kardec questiona a espiritualidade sobre de “onde nasce o desgosto da vida, que, sem motivos plausíveis, se apodera de certos indivíduos?” e recebe como resposta: “Efeito da ociosidade, da falta de fé, e também, da saciedade. Para aquele que usa de suas faculdades com fim útil e de acordo com as suas aptidões naturais, o trabalho nada tem de árido e a vida se escoa mais rapidamente. Ele lhe suporta as vicissitudes com tanto mais paciência, quanto obra com o fito da felicidade mais sólida e mais durável que o espera”. Essa percepção é corroborada por Martins Peralva, na obra O Pensamento de Emmanuel: “Acreditamos, firmemente, que a falta de fé responde pela quase totalidade dos suicídios. A fé é alimento espiritual que, fortalecendo a alma, põe-na em condições de suportar os embates da existência, de modo a superá-los convenientemente. A fé é mãe extremosa da prece”.

Partindo do pressuposto que toda experiência reencarnatória obedece a uma programação pré-determinada e aceita pelo espírito que voltará à vida na Terra, a doutrina indica que o suicídio rompe com o compromisso assumido na espiritualidade e decorre de fatores externos, terrenos. “Ninguém reencarnará com uma prova de cometer suicídio em sua atual vida”, afirma Bruno. “Porém, tal atitude, se realizada em vida anterior, pode trazer tendências de sua ação para a vida atual”, acrescenta, frisando que disso decorrerá o desafio do encarnado superar suas más tendências. Bruno recorda a obra A Terra e o Semeador, em que Francisco Cândido Xavier responde pergunta se o suicídio é consequência de fatores psicológicos em desagregação ou de influências espirituais em evolução: “Todos sabemos: cada espírito é senhor de seu próprio mundo individual. Quando perpetramos a deserção voluntária dos nossos deveres, diante das leis que nos governam, decerto que imprimimos determinadas deformidades no corpo espiritual. Cometido o suicídio, nessa ou naquela circunstância, geramos lesões e problemas psicológicos na própria alma, dificuldades essas que seremos chamados a debelar na próxima existência, ou nas próximas existências, segundo as possibilidades ao nosso alcance. Assim, formamos, com um suicídio, muitas tentações a suicídio no futuro, porque em nos reencarnando, carregamos conosco tendências e inclinações, como é óbvio, na recapitulação de nossas experiências na Terra”.

Na reflexão proposta pelo trabalhador do GEAE, o autoconhecimento emerge como instrumento fundamental na superação dessa inclinação. Bruno endossa orientação do colega Rodolfo Castro, apontando a importância da ajuda de profissionais de saúde, mas destaca que o amparo espiritual pode favorecer o tratamento. “Na casa espírita, deve-se buscar o atendimento fraterno. É um aliado importante para auxiliar na terapêutica espírita que será implementada no tratamento”, afirma. Segundo ele, as abordagens com passes, água fluidificada, desobsessão, apometria e captação psíquica; assim como a busca pelo autoconhecimento por intermédio das palestras públicas e do estudo sistematizado da doutrina espírita também ajudam.

Bruno recorre à obra A Terra e o Semeador mais uma vez: “os benfeitores da Vida Maior são unânimes em declarar que, em todas as ocasiões nas quais sejamos impulsionados a desertar das experiências a que Deus nos destinou na vida terrestre, devemos recorrer à oração, ao trabalho, aos métodos de autodefesa e a todos os meios possíveis da reta consciência, em auxílio de nossa fortaleza e tranquilidade, de modo a fugirmos de semelhante poço de angústia”, diz o livro. “Aos irmãos que possuem amigos e familiares que tentaram suicídio ou tem tendências a isso recomendo: não os desamparem!”, diz. “Continuem orientando-os e buscando auxiliar lhes a encontrar algo que possa lhes trazer esperança, fé e amor. Em casos de dúvidas, procure o atendimento fraterno do Geae”.

 

 

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