PERFIL: “TRABALHO SOCIAL NÃO PODE SER MEDIDO PELA DESPESA QUE DÁ”

Para líder de projeto social do GEAE, assistência social tem retorno garantido e alegra o trabalhador espírita

Seus olhos exalam bondade e doçura. As marcas em seu rosto traduzem uma vida de trabalho duro e destemor diante de oportunidades e desafios. A fala pausada traz sabedoria e clareza de princípios e propósitos. O exemplo do sentimento de solidariedade veio do pai, já na infância. A pratica da assistência social entrou na sua vida pela janela dos movimentos sociais de base em São Paulo, na década de 80, visitando invasões e cultivando o inconformismo perante a desigualdade. O tempo passou, mas essa chama manteve-se acesa e hoje ilumina sua contribuição ao projeto Águas Lindas de Goiás, uma das prioridades do Departamento de Assistência Social (DAS) do Grupo Espirita Abrigo da Esperança (GEAE). “Eu nunca me acostumei com a miséria”, avisa Ademar Pereira Peixoto. “Não podemos nos acostumar com o sofrimento das pessoas,. Fiz minha opção pelos pobres há muito tempo”.

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Ademar e as mesas que comprou para o GEAE: muita experiência partilhada

De uma simplicidade cativante, Ademar conhece os dois lados da moeda. Os primeiros anos de sua infância foram vividos no conforto criado por uma família com posses. Filho de camponeses, viveu no sertão de Goiás, na cidade de Anicuns, em uma fazenda compartilhada por familiares e outros agricultores. Com suas duas irmãs, ajudava na rotina do trabalho e brincava. “Fui uma criança alegre e ativa. Gostava de pescar e do trabalho na fazenda”, recorda. Quando contava sete anos de idade, sua família entrou em decadência financeira e mudou-se para a cidade. Empreendedor, seu pai, Agenor, tornou-se comerciante na própria Anicuns e depois em Americano do Brasil. Nesse período, Ademar foi alfabetizado. “Meu pai era bravo quando precisava. Sempre foi carinhoso com os filhos, mas corrigia”, diz Ademar. A mãe, Maria Joana, era protetora e muito sábia, recorda.

Em 1957, a família vendeu tudo o que tinha e seguiu para Goiânia, momento de grande inversão. A nova casa, muito simples, não tinha camas suficientes para todos e a renda era mínima. Ademar ainda se emociona quando recorda esse período. De mudança, ganhou de amigos fardos de milho e mamão, produtos que vendeu na feira para ajudar no sustento da casa. “Vendi o milho muito rápido, mas o interessante é que não acabava nunca. Vendia, mas não acabava”, recorda, entre lágrimas. Instalado com a família em Goiânia, Agenor aceitou convite de um irmão e conseguiu um trabalho na construção de Brasília. Era carpinteiro experiente e trabalhara em construção. Passava 90 dias fora e vinha visitar a família. “Ele não quis nos levar pra lá. Dizia que a cidade era muito violenta e não queria criar seus filhos num ambiente como aquele”.

Ademar cursou até o segundo grau. Aos 12 anos deixou a escola para trabalhar. Começou em uma torrefação de café; depois passou por uma marcenaria; e por fim, foi trabalhar em uma vidraçaria, atividade em que encontrou um talento natural e rendeu-lhe uma carreira de 25 anos de atividade. No auge da juventude, desejava sair de Goiânia, mas queria deixar a casa dos pais apenas depois de casar-se. Desde os 13 anos conhecia Edimar, sua primeira namorada e esposa: uniu-se a ela aos 21 anos. “Eu era amigo dos irmãos dela e todos saíamos para dançar. Éramos muito alegres”, conta. Ademar viajava muito a trabalho e numa dessas ocasiões sentiu muita falta da namorada. Na volta, pediu sua mão e casou, algum tempo depois levou a família para São Paulo, onde já estava trabalhando firme. Esperavam o primeiro dos três filhos que tiveram juntos.

UMA PERGUNTA DECISIVA – A habilidade como vidraceiro abriu-lhe muitas portas em São Paulo e manteve Ademar em movimento. Ele morou e trabalhou no Rio de Janeiro e Brasília. Representou empresas em que foi contratado e também abriu suas próprias vidraçarias, negócios que nem sempre deram certo. Nos primeiros anos da década de 80, conheceu movimentos populares em São Paulo e começou a estudar política. Naquela época, a luta envolvia levar saneamento básico ao bairro de Santo Amaro, um dos maiores da capital. “Fui preso várias vezes. Nós lutávamos pela igualdade social e distribuição da riqueza”, lembra. Cada vez mais politizado, Ademar estudou a Teologia da Libertação e seguiu participando de movimentos como o que levou às eleições diretas. Até então, a espiritualidade era apenas uma referência na sua vida: as avós, sua mãe e suas tias foram Filhas de Maria. Os homens da família foram Marianos, fechando o elo de uma família católica e praticante. “O Espiritismo entrou na minha vida muito tarde. O catolicismo já não respondia às minhas perguntas”, conta. Trabalhando no Rio de Janeiro, acompanhou um amigo a uma casa de Umbanda. Lá, ouviu que seu caminho o levaria “até ali”. Ademar não entendeu o recado, nem teve empatia com a religião. Mas aquele vaticínio o acompanhou por muito tempo, como uma pergunta sem resposta. Tempos depois, Ademar voltou para Brasília e decidiu fabricar sorvete. Certo dia, ouviu a conversa do torneiro que fazia os carrinhos e pela primeira vez tomou contato com o Espiritismo. Antes de ir embora, pediu para conhecer a casa que comentavam: foi quando conheceu Jacer Queiroz e o GEAE. “Foi a primeira casa com que tive afinidade. Frequentei 90 dias fazendo tratamento”, conta Ademar. Recuperado, pediu para continuar frequentando – queria ficar “em um cantinho” na sala de passes.

Três meses depois foi convidado a trabalhar na Casa. Passou pelo passe, pela desobsessão e pela apometria, período marcado por um mergulho profundo na doutrina. “Foi um período muito fértil, de muito aprendizado”, recorda, Já vivendo seu segundo casamento com Vidalva, com quem teve três filhos, no GEAE Ademar reencontrou-se com a assistência social: a Casa ainda não estava pronta, mas seus dirigentes planejavam um projeto social. “A ideia era distribuir sopa e reunir a comunidade da invasão em redor”, diz. Naquele tempo, visitando um ferro velho em Ceilândia, Ademar deparou-se com mesas usadas, com banquinhos. “O Edmir já tinha me convidado e meu primeiro ato foi comprá-las”, afirma, olhando as mesas que ainda hoje estão no refeitório do GEAE. “Por essas mesas já passaram milhares de pessoas”.

Com o refeitório montado, Ademar liderou o projeto assistencial da Casa, que por oito anos amparou as pessoas que viviam na invasão da QE 40. Eram mais de 70 famílias, que recebiam cestas básicas. “Se a pessoa teve a humildade de chegar aqui e pedir ajuda, não temos o direito de questionar”, diz. “O trabalho social não pode ser medido pela despesa, pois o retorno é certo”. Intuitivo, teve o apoio necessário para fazer outras ações, como o diálogo fraterno dentro da assistência social e uma cooperativa, ferramenta para construir cidadania e emancipar as famílias. Em 2002, Ademar deixou Brasília e foi morar em Luziânia, onde teve outras experiências. Afastou-se do trabalho espiritual, mas o trabalho social cresceu. Ainda assim, vinha visitar os amigos que deixou na Casa. “Eu sentia falta. O GEAE foi uma luz pra mim”, comenta. “Ele parece um anjo. Seu olhar, sua sensibilidade, parece que ele sente de verdade a dor do próximo”, afirma Ana Paula Aguiar, trabalhadora da Casa. “Foi com ele que, há mais de dez anos, tive a boa experiência de encontrar, conversar e distribuir cobertores e casacos a sem tetos da antiga rodoferroviaria”, recorda.

AÇÃO E RESPOSTA – De volta à capital federal, sentiu profundamente a perda do amigo Luis Cláudio Coutinho, seu grande companheiro na assistência social da Casa. “Foi uma perda muito grande pra todos nós, mas principalmente para o GEAE”, lembra Ademar. Nesse momento de dor, diz, decidiu retomar o trabalho. Não precisou muito tempo para ser convocado novamente: o GEAE planejava iniciar um novo projeto assistencial e queria Ademar à frente. Ele saiu a campo para buscar uma comunidade que pudesse ser trabalhada: encontrou o que buscava em Águas Lindas de Goiás. “Meu sonho é ver no GEAE um trabalho social de peso. Eu ainda sonho que o povo tenha a oportunidade de ser cidadão de verdade”.

“Ademar é uma pessoa bondosa e muito trabalhador. Dedicado e compromissado, ativo, lúcido na mensagem de Jesus; sempre disposto a ouvir e cooperar”, diz Edmir Freitas, vice-presidente do GEAE. Coordenador do projeto Águas Lindas de Goiás, Ademar é pai de seis filhos, tem seis netos e um bisneto. Hoje solteiro, mantém a inquietude que movimentou sua vida e o idealismo que influencia suas escolhas. “Eu fico alegre com a alegria dos meus filhos”, afirma. “Procuro dar o exemplo e estimular que tenham uma vida espiritual elevada, transmitindo esperança, alegria e serenidade”. Passados tantos anos e tendo vivido tantos desafios e oportunidades, ele finalmente decifrou o vaticínio da mãe de santo carioca: sua realização pessoal está no trabalho com a espiritualidade e ele está cheio de novos planos.

 

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